COM VOCÊS, PALHAÇO TITETÊ – QUANDO A FILOSOFIA E A PALHAÇADA SE ENCONTRAM

COM VOCÊS, PALHAÇO TITETÊ – QUANDO A FILOSOFIA E A PALHAÇADA SE ENCONTRAM

Os encontros felizes são os verdadeiros encontros

Por Sérgio Carvalho Foto de Eder Medeiros
Paletó preto – cheio de surpresas, desajeitado, minúscula cartola de lantejoulas cintilantes na cabeça. Voz estridente e gargalhada, ora cínica, debochada; ora ingênua. Maleta marrom, de outros tempos, surrada, como todo o resto do conjunto. Balões coloridos e luva que estica. Respeitável leitor, com vocês: Palhaço Titetê.

Convidado para acompanhar o Festcineamazônia Itinerante em sua jornada pelo Vale do Guaporé, de Guajará Mirim até Pimenteiras – passando por diversas comunidades, tanto brasileiras quanto bolivianas – o mineiro Cícero Silva, por 15 noites, alegrou o mais variado público: ribeirinhos, indígenas, quilombolas, israelitas e militares, com o seu espetáculo “Titetê em ConSerto”, criado, especialmente, para ocasião.

Conserto com “S”, enfatiza Cícero. No sentido de consertar algo que está com defeito. O espetáculo teve trilha sonora original, criada, pelo também mineiro, Fred Selva, com intensa pesquisa nos ritmos amazônicos.

No longo caminho entre a vila boliviana de Remanso, onde ocorreu a última apresentação do Festcineamazônia Itinerante, e a cidade rondoniense de Pimenteiras, 24 horas de batelão, convidei Cícero Silva para me contar um pouco de sua história, visão de mundo, onde filosofia e palhaçada se confundem, se distanciam e se encontram.

Nascido na pequena cidade do interior de Minas Gerais, Nova Era – nome sugestivo para a cidade natal de um palhaço. Porém, criado no vale do aço mineiro, Ipatinga, no final da ditadura militar. Definiu o lugar em que cresceu como repressor, de pouca privacidade, onde a empresa USIMINAS, responsável pela exploração e beneficiamento de metais, ditava o futuro da maioria dos jovens dali: tornarem-se funcionários da Usina.

Rompendo com o provável destino que o esperava se continuasse por ali, no começo dos anos oitenta, muda-se para Belo Horizonte, onde começa a estudar pedagogia e um curso técnico de teatro pela UFMG. Logo, passa para faculdade de filosofia.

Nos anos 90, encontra-se com o teatro de rua. Até então, atuava, principalmente, como diretor e dramaturgo. Foram anos de intensas viagens por festivais. Porém, em 1996, ao assistir um número de um palhaço que o inspirou, o Vira Lata, começa a se dedicar as artes circenses.

Somente 10 anos depois que se entrega ao estudo dos clowns, da arte da palhaçada. Teve grandes mestres, entre eles, a canadense Sue Morrison, com a qual teve a oportunidade de conhecer a tradição dos índios norte-americanos e seus palhaços primitivos.

“Foi um encontro íntimo comigo mesmo, profundo. Ali, linhas invisíveis foram traçadas, por meio de técnicas que envolviam máscaras, mergulho em mim mesmo.” – contou Cícero. Palhaços, psicologias e filosofias tinham muito mais em comum, que, a princípio, imaginou.

Continuou suas pesquisas sobre as artes do palhaço e, em 2007, teve a oportunidade de integrar o conceituado grupo paulista dos Doutores da Alegria, que visitam hospitais e apresentam números lúdicos para os doentes, trazendo conforto e potencializando a cura. Agora, o universo da palhaçada encontrava-se com a medicina. Nos “Doutores” ficou por cinco anos, atuando nos hospitais e, também, como formador de novos integrantes e ministrando palestras sobre o grupo.

“Minha experiência como palhaço tem um vínculo direto com a minha formação: a filosofia.  Quando estudava, sempre me interessei pela Estética e pela Ética. Estética e Ética, tudo a ver com o clown. A permissão, a escuta diferenciada. Sobretudo, a valorização do encontro, como fala Spinoza: os encontros felizes são os verdadeiros encontros.” Uma breve pausa: “Não, não acredito na alegria e na felicidade plena. Nem na alegria banalizada da televisão, que tira o grotesco, o estranhamento do palhaço. Pois, o palhaço também traz a tragédia, o conflito, o sombrio. A superação da dor pelo riso. Sobre as botas do poeta até a tragédia é bela.”

Agora, a palhaçada encontra-se com a poesia.

Quando a mãe morreu, em 2006, estava em uma península no Sul da Bahia. Longe de Minas Gerais e sem ter como voltar. Naquela noite, mesmo com o luto eclipsando a alma, contou que fez um dos espetáculos mais lindos de sua carreira, dedicado a mãe. Sem dúvida, sobre as botas do poeta até a tragédia é bela.

Titetê – o palhaço escovado

Seu primeiro palhaço precisou ser escovado. Palha de aço, brincou com a palavra, ou seja, o metal grosseiro, que o remete a sua juventude na cidade dos metais,  teve de ser limpo, reluzido, polido. Baba, como batizou seu bufão inicial, palavra Orubá, que significa pai, era o tipo que tirava onda e debocha com a cara do público.

Com o seu amadurecimento profissional, Cícero percebeu que ele próprio tinha de ser o ridículo. Aquele que ri de si mesmo, que exagera e expõe suas feridas na forma de piada. Ele precisava ser o seu próprio deboche, assim, seria o escárnio do mundo. Sua redenção. O filósofo palhaço teoriza: “O riso é uma poética, estabelece sentidos e sentido só se constrói se existe identidade. Rir da gente mesmo, na singularidade, atingimos o coletivo. O grande barato do palhaço é ser amado. Ele ama tanto que transborda”

Assim nasce Titetê, apelido carinhoso pelo qual os sobrinhos o chamava.

Sobre sua experiência no Festcineamazônia Itinerante, conclui o palhaço transbordante: “Experiência única. Muito inspirador. Nesta viagem, tive com o comprometimento ético de só entregar o melhor de mim. Talvez, poucos ali já tinham visto palhaços, olha a responsabilidade! Em cada apresentação, entreguei o que eu mais acredito, minha potência máxima. Termino muito vitalizado.”

Quase no fim da conversa, palhaço e filósofo unem-se em harmonia: “Fellini disse que o último estágio da arte circense é o de palhaço. Sim, um verdadeiro palhaço precisa mergulhar em si mesmo. Somos uma expressão da arte. Arquétipo primordial. Em meu palhaço, pergunto: Quais as minhas inquietações? Motivações? O que eu, realmente, quero dizer? Assim, como a tripulação deste batelão, não somos nós, também, navegantes de nossas emoções? Os palhaços, além do riso, precisam causar espanto. Rir, chorar e aterrorizar. Sim, aterrorizar. Onde está a grande gargalhada que deforma e aterroriza? Alcançar o coração dos homens, não somente pela piada, mas pela graça. Pois, a Graça é divina.”

Sim, a graça é divina.

O Festcineamazônia Itinerante tem o patrocínio do BNDES, Ministério da Cultura, Secretaria do Audiovisual Lei Rouanet, apoio cultural da Fundação Saramago e Iphan. Parceiros de Mídia Rádio Parecis FM e Canal Brasil. O Festcineamazônia é membro do Green Film Network e Fórum dos Festivais.

Você também pode gostar

FESTCINEAMAZÔNIA ITINERANTE 2015 NA BOLÍVIA

FestCineAmazônia é exibido em 6 comunidades bolivianas Por Texto: Felippe Jorge Kopanakis – Foto: Gavin Andrews   A viagem do FestCineAmazônia Itinerante 2015 – Vale do Guaporé por terras bolivianas

FEST CINEAMAZÔNIA FAZ EXIBIÇÃO EM TOCANTIN...

A mostra itinerante do Fest Cineamazônia 2010 será exibida nesta quarta-feira (17/03), na cidade de Palmas. O evento será no Auditório do Bloco 3, da Universidade Federal de Tocantins (UFTO).

COMUNIDADE QUILOMBOLA DE SANTO ANTÔNIO TEM N...

Com 16 anos, Conceição sonha ser médica. Com 58 anos, Armando cultiva uma barba branca tão ‘preta’, como diria a música dos Secos e Molhados e apenas espera vender bem

0 Comments

Ainda não há comentários

Você pode ser o primeiro a comentar este post!