Dia 2 – Iñapari parte I: A missão

Dia 2 – Iñapari parte I: A missão

A manhã  tinha começado estranha. Acordara com um gosto amargo na boca e um sentimento enorme de constrangimento que tomava o peito, como se tivesse dado vexame em uma bebedeira e agora teria que encarar a ressaca moral. Uma ressaca que provavelmente durará uns cinquenta anos para passar. O golpe havia sido dado. Sabíamos que aconteceria, mas ver esse péssimo momento histórico e ver um raio cair duas vezes no mesmo lugar, cinquenta anos depois, era constrangedor e… estranho.

Bem, acordamos e, embora tudo tivesse mudado do lado brasileiro da fronteira, ainda tínhamos um festival para realizar. Lá fora o sol se escondia entre as nuvens, mas não deixava de ser quente, produzindo um mormaço desconfortável. Fomos tomar café em uma lanchonete próxima ao hotel (pão com ovo e vitamina de banana, o café da manhã dos campeões). Se eu me sentia esquisito naquela manhã, Fernanda estava arrasada. Isso de certa forma me confortava, por saber que não era o único a me sentir daquela forma.

Aproveitamos para fazer uma breve reunião de pauta. Eu, Avener, Fernanda e Christyan. Foi ótimo para afinar as ideias e ver o que poderia ser feito e o que provavelmente não iria funcionar nos próximos dias.

Com as ideias um pouco mais afinadas, eu, Christyan,  e nosso produtor peruano, John, fomos em busca da nossa principal missão do dia. Entrevistar a primeira personagem para o Museu Vivo, projeto do Cineamazonia de colocar entrevistas com pessoas locais contando a história da região.

E amigos… que personagem!

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A bordo chuco-chuco, tuc-tuc, tuco-tuco, chinkungunha… algo do gênero.

Para encontrá-la, pegamos um tuco-tuco (ou chuco-chuco, tuk-tuk, chuc-chuc, chimichanga, sei lá… É um triciclo igual aqueles que vemos nos filmes que envolvem a Índia, sabe?) e seguimos em direção a área mais rural de Iñapari, distante uns dez minutos do hotel.

À medida que íamos nos aproximando, o asfalto se transformava em chão de terra batida. Nas duas extremidades da rua, o mato crescia abundantemente em frente às casas feitas de madeira. De dentyro das casas, algumas crianças olhavam  a nossa chegada com desconfiança.

A casa que procurávamos era como todas as outras ao redor, de madeira velha e sem pintura. Ficava em um terreno cercado de mato na altura de nossa canela. Uma tábua de madeira nos ajudava a não pisar em uma poça de lama. O quintal de chão batido tinha duas árvores grandes e outras menores, cobrindo quase todo o terreno. Havia uma namoradeira, uma cadeira, um galinheiro e uma casinha, aparentando ser o banheiro. Todos de madeira.

Na porta da casa, a dona ainda reluta um pouco para falar. Indica a filha, Maria, que ajudou com o contato, para o seu lugar. John, entretanto, a convence. Ela senta no banquinho de madeira. Christyan produz o enquadramento, embaixo de uma das árvores maiores. Ela ajeita os fios grisalhos que começam a invadir o cabelo liso e negro na altura das orelhas com as mãos calejadas. Olhos pequenos desviavam da direção da câmera. Passa as mãos no rosto enrugado. Ela começa a falar.

“Meu nome é Raimunda Gomes Cavalcante, nascida em Seringal de Porto Carlos…”

Raimunda venceu na vida. Não através da lógica que aprendemos desde cedo, enraizada para nos ensinar o mantra burguês de  crescer, estudar, produzir, enriquecer. Raimunda não tem uma casa enorme e luxuosa; mas ajudou a construir com a própria força do trabalho as casas em que morou. Nunca viajou a Europa e Estados Unidos, mas sempre conseguiu sobreviver por onde passou, não importasse a dificuldade. Nunca conseguiu pagar estudo de ponta para os filhos serem médicos ou engenheiros, mas conseguiu fazer com que não passassem fome e os viu serem alfabetizados e darem a ela netos e bisnetos. Ela é, até hoje, analfabeta, mas se orgulha dos calos que cultivou na mão durante todos esses anos. Raimunda é e sempre foi pobre economicamente falando, mas já chegou a abrigar em sua casa, ao mesmo tempo, dezesseis haitianos que ficaram desabrigados durante a última grande cheia do Rio Acre. Ela até hoje os chama de filhos.

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Eu, Raimunda e Christyan. Pé direito no projeto dos Museus Vivos

Dona Raimunda é vencedora por tudo isso. E não entenda isso como ode à pobreza, como adoram apontar os ferrenhos defensores neoliberais, mas como um enorme respeito a quem se acostumou a contrariar todas, TODAS, as probabilidades para dizer que sim, ela existe. E tem direito de existir.

Até porque, convenhamos: quem realmente tem fetiche por pobreza é aquele que faz de tudo para perpetuá-la.

Um abraço apertado, uma foto para recordação e fomos embora.

Bola é bola em qualquer lugar do mundo

Bola é bola em qualquer lugar do mundo

Depois do almoço, tivemos algumas horas livres. Aproveitei para dar uma volta na cidade para procurar algum lugar com wifi. Foi bom para dar uma olhada melhor em Iñapari. Constatei que é uma típica cidade do interior, com jardins e cercas baixas (não há muros altos na cidade).

Você deve estar pensando: legal, mas e o festival? Amigo… eram seis horas da tarde quando as nuvens carregadas do mormaço que castigava-nos desde o início da manhã mostraram a que vieram.

A chuva foi uma ducha de água fria para nós. Literalmente.

A chuva foi uma ducha de água fria para nós. Literalmente.

Choveu. Mas choveu… CHOVEU! Tanto, que ficou impossível de montar a parte elétrica, já que o filme seria exibido a céu aberto.

Restou a nós apenas jantar pizza novamente, dormir e esperar que no dia seguinte as coisas funcionassem. Foi o que fizemos.

Ps1: Cusqueña, a cerveja peruana que vende por aqui é MUITO boa.
Ps2: Não esqueçam de dar uma olhada nos nossos Museus Vivos. Logo estará disponível no nosso site.
Ps3: Dona Raimunda <3

 

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