Dia 7 – A dureza de Extrema

Dia 7 – A dureza de Extrema

Estamos cansados e isso é visível. Está nas nossas expressões, nos bocejos, nas viagens em silêncio na manhã seguinte ao espetáculo. Alguns pequenos problemas também começam a aparecer. Por exemplo, ainda não tivemos chances de lavar roupa. O pouco tempo que temos livres, o sol ainda não apareceu direito, se mantendo escondido por trás das nuvens dificultando a secagem das roupas molhadas. Com isso, nem queira saber o estado de algumas meias dos viajantes.

O reflexo disso é que o quarto que divido como Christyan e Avener em Extrema tem um misto de meia suja, banheiro usado, desodorante masculino, sabonete Phebo e toalha  molhada.

Sorte que temos o pedaço de palo santo levado por Chistyan, que ele diz ser uma madeira mística da cordilheira dos Andes. Segundo Chris, o palo santo – um pedaço de madeira bem leve e com a consistência de um carvão — é um incenso natural que na medicina indígena serve para sarar de tudo, desde alma carregada à dor de cabeça. Mas aqui nós utilizamos para disfarçar a miscelânea de odores descrita acima.

Chegamos à Extrema por volta da hora do almoço. Christyan já tinha o personagem do Museus Vivos em mente. Era Walderi Maia, um senhor de 80 anos de idade que chegara em Extrema por volta dos 16, como mais um imigrante que saíra do Ceará em busca de melhores condições de vida nas inabitadas terras do norte do país. O rosto coleciona rugas e quase não há cabelos na cabeça. A orelha esquerda foi parcialmente arrancada em uma cirurgia depois de ter se ferido com um prego em uma reforma em casa._84U5576

A casa de Walderi ficava na baixada de Extrema, em uma rua esburacada e de difícil acesso. O barraco de madeira era ao mesmo tempo lar e trabalho. Na varanda, todos os tipos de produtos ficavam à mostra. Redes, roupas, calçados, toalhas, bolas, brinquedos. Dentro, não há espaço para muita coisa. A cama de casal é baixa e, em cima dela, mais objetos estão à mostra. Um pequeno balcão separa a cozinha do resto do casebre.

Ele conta que saíra com os pais e os 17 irmãos do Ceará quando tinha 16 anos. O percurso durou entre vinte dias e um mês e foi muito difícil. Muitas das famílias que acompanharam a de seu Walderi com o mesmo destino abandonaram o trajeto e ficaram pelo caminho. Outros tantos morreram de malária.

De certa forma, o então seringueiro já chegara em Rondônia como sobrevivente para trabalhar com os pais e os irmãos no seringal. O local era no meio da mata em uma área predeterminada pelo patrão. A “casa” da família era um pequeno lugar descampado com chão de assoalho beneficiado e um teto de palha segurado por quatro troncos de madeira. No meio da floresta amazônica ainda praticamente inexplorada, não havia paredes que os protegessem de onças, cobras, queixadas e dos mosquitos._84U5559

Assim como tantos outros nordestinos que migraram para o norte, Walderi tinha ido em busca de um pedaço de terra para chamar de seu. Tudo que encontrou, entretanto, já tinha dono. A terra, o local de trabalho, as ferramentas, a comida. Por tudo isso tinha que pagar. Enquanto um quilo de borracha era vendido aos patrões por R$ 0,05, o quilo de banha de porco para fazer comida era vendido aos seringueiros por R$ 2,00 (cotação atual).

Foram anos nessas condições. Trabalhando muito, comendo pouco, descansando menos ainda. Viu os pais falecerem e os irmãos procurarem outro lugar para viver. Viu amigos e conhecidos morrerem nas mãos dos patrões, que os matavam assim que esses pediam as contas para irem embora dali.

A história de seu Walderi Maia não é exceção, e sim regra. Isso de certa forma explica o histórico de violência que paira sobre o distrito.

O local é tido como um dos mais complicados do trajeto da itinerância. Em Extrema, como todos os outros distritos de Porto Velho em que passamos, o poder público praticamente não existe e as atrações culturais são mais que raras.

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Entretanto, algo nos jovens sempre fez do local um lugar com um clima especialmente hostil para a caravana. Em experiências anteriores, os palhaços convidados foram agredidos fisicamente pelo público. Isso sem contar os gritos de deboche que vinham a todo o momento do espetáculo.

Para Fernanda, o fato de terem sido ignorados durante tanto tempo pelo Estado criou uma fome de atenção, de cultura e até mesmo de carinho. Faz sentido. Há uma corrente do behaviorismo que diz que uma determinada comunidade, grande ou pequena, que é colocada em um estado de frequente estresse, violência e descaso durante muito tempo tende a desenvolver um comportamento antissocial que serve como uma espécie de válvula de escape e até autopreservação.

Em outras palavras, o abandono do Estado contribui ativamente para a construção de uma sociedade hostil. Não é preciso ser um sociólogo para perceber que muito provavelmente este seja o caso de Extrema.

Já perto da exibição, os palhaços Figurita e Aguahito se arrumavam para a apresentação da noite. Eu e Avener aproveitamos para fazer uma entrevista com eles.

Figurita é Juan Carlor, 40 anos de idade, nasceu em Ica, na costa do Peru. Ele já está vestido quando entrei no quarto que lhe serve como camarim. Tem o cabelo liso preto e uma pele morena como a maioria das pessoas daqui. O rosto não tem um fio de barba sequer, para não atrapalhar o processo de caracterização (é muita maquiagem). Sentado em uma das camas da suíte, ele conta como decidiu se dedicar à vida de palhaço. Torcedor do Alianza Lima, time da capital e um dos mais populares do Peru, Juan divide a profissão com a de professor de Educação Física._84U5891

 

Mas o que mais chama a atenção é a humildade que ele transparece. Durante toda a viagem é fácil perceber que está visivelmente feliz em participar da itinerância.

Durante a entrevista, ele contou sobre algumas experiências como palhaço. Como da vez em que fora contratado para animar uma festa de debutante de uma garota no Peru. No local reservado para dezenas de pessoas, apenas quatro convidados, tirando a família da menina, ocupavam o espaço. Passaram-se 30 minutos, uma hora, duas horas… Mas os convidados não apareciam. A mãe chegou a pedir que ele cancelasse o espetáculo. Juan não obedeceu. “Estou aqui para te animar, irei te animar”, disse à aniversariante que não escondia a frustração. Durante a apresentação foi o único momento em que a garota sorriu.

Terminamos a entrevista com Figurita. Faltava Aguahito, mas um problema no microfone não permitiu a continuidade. Menos mal que naquele momento, seu Joselito chegava com Christyan tendo como missão levar os palhaços para a apresentação. Estávamos atrasados.

Enquanto isso, na quadra poliesportiva em que seria realizado o show, Fernanda começa a ficar preocupada. A tensão pairava no ar de forma palpável, como se fizessem parte das partículas de poeira que tomavam conta da cidade. Os filmes acabaram e era a vez dos palhaços, que ainda não haviam chegado. A plateia começa a ficar impaciente e Fernanda decide colocar mais filmes para rodar enquanto a próxima atração não chega._84U5857

No hotel, os dois palhaços já estavam prontos. Philippe filmava a saída dos palhaços do quarto até a van, que faziam brincadeiras para a câmera enquanto atravessam o corredor. Estávamos todos na van, quando Aguahito se dá conta de que esqueceu algo. Ele para e vai até o quarto para pegar e demora mais alguns minutos.

De volta à quadra, Fernanda precisa ficar atenta. Ela ouviu de um dos garotos conversando e dizendo que pretendiam pegar o extintor de incêndio do festival que estava atrás do telão. Por isso, ela decide ficar o tempo todo atrás da tela, vigiando possíveis tentativas de tumultuar a apresentação .

A van finalmente chega. “Isso não pode nunca mais acontecer. Vocês não sabem como é difícil segurar esses meninos!”, diz Fernanda em tom de veemência na nossa chegada.

A dupla passa por uma passarela coberta e entra no ginásio. Nas arquibancadas a presença dos adolescentes é maciça. Alguns jovens gritam impropérios e algumas crianças correm durante por todo lado durante a apresentação dos palhaços.

Pelo menos desta vez nenhuma pedra foi jogada. Ufa.

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