Reencontro sob as bênçãos da Madeira-Mamoré

 

Texto: Ismael Machado
Fotos: Zeca Ribeiro

A Estrada de Ferro Madeira-Mamoré faz parte das lembranças e sonhos de quase todos os moradores mais antigos de Iata, um pequeno distrito distante cerca de 30 km de Guajará-Mirim, em Rondônia. Aluísio Lucas Caetano, 63 anos, sempre se refere à lendária estrada de ferro como algo que nunca deveria ter acabado. A mesma ferrovia foi lembrada na última quinta-feira, 14/07, pelos palhaços Chiquita e Pirulito durante a apresentação que encerrou a segunda noite de programação do Cineamazônia Itinerante 2016.

O cenário era propício. A estrutura foi montada numa praça em frente à igreja católica. Cercada de jambeiros e sob um céu bastante iluminado, a tela do Cineamazônia encheu os olhos de quem foi chegando aos poucos, em silêncio e em expectativa. Na abertura, a coordenadora do Cineamazônia, Fernanda Kopanakis lembrou que logo no início das itinerâncias, a partir de 2008, o distrito de Iata fez parte do percurso. “É uma alegria muito grande poder retornar a Iata”, disse.

Itinerância Vale do Guaporé

Itinerância Vale do Guaporé

 

O distrito vive atualmente do funcionalismo público, embora tenha uma vocação natural para o turismo ecológico e de pesca. Tanto uma como outra atividade pouco tem a ver com o que fora planejado inicialmente para Iata. A existência do distrito se deve primeiramente ao objetivo que tinha o Governo Federal de ocupar áreas de fronteira nesta região do Brasil, assim como atribuir outras funções à mitológica EFMM, que já vinha sofrendo certa ociosidade com o rareamento do transporte da borracha, em franca decadência.

Iata deve então seu surgimento ao período do governo do Presidente Getúlio Vargas. Em 1943, no auge da Segunda Guerra Mundial, foram criadas algumas colônias agrícolas em diferentes pontos da linha férrea da Madeira-Mamoré, sendo a principal delas a Colônia Agrícola do Iata.

Sem guerras, sem borracha e sem a estrada de ferro, o distrito hoje acaba sendo um oásis de tranqüilidade. Para os moradores há poucas opções de lazer e cultura e o Cineamazônia cumpriu, pelo menos por uma noite, essa função. “Foi bom demais. Se fosse todos os meses seria melhor ainda”, afirmava Roberto Aguiar, administrador do distrito, logo depois de encerrada a sessão.

Itinerância Vale do Guaporé

Itinerância Vale do Guaporé

Se dependesse de Sara isso ocorreria todos os dias. A menina assistiu a tudo com olhos embevecidos. Não arredou pé dos filmes e ao final do espetáculo circense abraçou demoradamente Geisa Helena, a artista que faz a personagem Chiquita.

“Foi muito divertido. Muito bom”, disse Deise Ane, ao lado da amiga Ozenelde Moraes, que levou os gêmeos Davi e Diana de apenas nove meses. “Não quis perder. Tomara que ano que vem tenha de novo”, disse ela.

Durante a exibição dos filmes, chamou a atenção o curta “Ele?”, de André Cran. Ao abordar a lenda do boto, o filme acabou por fazer com que alguns moradores lembrassem que Iata tem um lado misterioso pouco explicado, o fenômeno das luzes avermelhadas que surgem à noite, nos caminhos de terra e na margem do rio.

Na noite de reencontro com o Cineamazônia, no entanto, o único brilho que se viu foi nos olhos das crianças que participaram ativamente do espetáculo. Ao final Geisa Helena teve que posar mais de dez vezes para fotos com crianças que não queriam deixar de registrar aquele momento único.

Nesta sexta, a apresentação do Cineamazônia será no município de Guajará-Mirim. No sábado, 16, é Guayaramerin que receberá cinema e circo.

Cineamazonia, 14a EDIÇÃO, tem o patrocínio do BNDES, Governo Federal, Ministério da Cultura, Secretaria do Audiovisual, Lei Rouanet. Apoio Cultural da Prefeitura de Porto Velho, através da SEMA.

 

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