De reis e rainhas

De reis e rainhas

Texto: Ismael Machado
Fotos: Zeca Ribeiro
Edição: Lui Machado

Pinduca é rei em Guayaramerin. Tomo um susto ao entrar  na casa da velha Aidê e no quintal deparar com um adolescente ouvindo um DVD do rei do carimbó. Quando digo ao rapaz que ele é da minha terra, os olhos do moleque brilham.

É necessário recapitular.

Estamos na segunda etapa da itinerância do Cineamazonia. Serão uns 20 dias navegando por rios exibindo cinema, palhaços etc. Um dos braços dessa caravana cultural se chama Museus Vivos, um projeto que idealizamos numa tarde em Niteroi com Fernanda e Jurandir , que organizam o Cineamazonia.

A idéia é registrar a história de pessoas que viram e fizeram a história. Que viveram e tem o que contar.

Itinerância Vale do Guaporé

Itinerância Vale do Guaporé

Então, agora estamos Lui, eu, Gabriel e Zeca Ribeiro entrando na casa de Aidê. Não custa ressaltar que estou feliz de olhar ao lado e ver os meus dois filhos trabalhando comigo. Lui é quem dirige o Museus Vivos nesta etapa. Só dou uma ajuda nas entrevistas. Gabriel tem sido uma espécie de roadie do Lui.

Uma hora depois de iniciarmos a entrevista estamos todos com os olhos mareados. Culpa de Aidê.

Na carteira de identidade está Edith. Mas entre uma e outra há um mundo. E isso me soa simbólico, a mudança de Edith para Aidê.

É uma mulher de uns 80 anos, negra de cabelos brancos curtinhos, brincos dourados e dedos repletos de anéis prateados. Um sorriso calmo, uma voz pausada.

Aidê não teve infância. Não brincou. A mãe morreu de meningite quando Aidê ainda era muito pequena. Ficou passando de mão em mão, de família a família. Neta de escravos, descendente de barbadianos que ajudaram a construir a estrada de ferro Madeira Mamoré, Aidê chorava sozinha quando via que carinho de mãe não existia para ela.

Teve cinco filhos, de dois parceiros diferentes com quem morou. Ela enfatiza que nunca casou e isso parece mais um rombo na fantasia de jovem que foi dissipado pelo tempo.

Aidê derrama uma lagrima solitária quando nos conta isso. Todos ficamos embevecidos com a mulher que estudou até a terceira série, mas tem uma filha fazendo doutorado nos Estados Unidos. Aidê encerra dizendo essa é minha história. Sem mácula, sem rancor, serena.

Abraçamos essa mulher com genuíno afeto. Saímos melhores, todos nós. Nunca irei esquecê-la.
E esse é apenas o começo do dia.

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De noite, nos perdemos na cidade escura. Até encontrarmos o local das apresentações. Foi estranho. A quadra estava lotada e os palhaços adaptaram o espetáculo para o novo público.

Ao lado da quadra onde os filmes eram exibidos havia um bar surreal. Decidimos tomar umas pacenas por lá, enquanto a mistura de Madonna, Leandro e Leonardo e led Zeppelin vai fazendo a cama sonora. Faço foto de um grupo chamado Los Iracundos para mandar ao Marcelo Damaso.

A volta é feita no caminhão que carrega os equipamentos. Antes, bom dizer que reencontrei o velho Abraham, o último comunista da face da terra, que conheci na primeira itinerância Peru-Bolívia em 2008. Nos abraçamos e eu apresentei Michelle, Lui e Gabriel a ele.

No dia seguinte, um vento frio nos diz que o tempo pode mudar. E vai mudar. Daqui a pouco será lua cheia.

Olho para o rio e prevejo os próximos dias.

Estamos bem. Principalmente porque Chicao Fill, de Manaus, me informa que estamos no páreo num edital amazonense. Boas novas.

E Pikachu desencantou fazendo o primeiro gol pelo Vasco. Agora ninguém segura.

Vamo que vamo.

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