Dia 1 – Porto Velho – Iñapari (Ao som de Belchior, “Pequeno Mapa do Tempo”

Dia 1 – Porto Velho – Iñapari (Ao som de Belchior, “Pequeno Mapa do Tempo”

A nossa careta na primeira foto da edição 2016 do Cineamazônia Itinerante demonstrava duas coisas. A primeira era que o sol intenso que fazia em Porto Velho nos acompanharia durante toda nossa viagem. A segunda era o inegável sono que permanecia em todos naquele momento. Afinal, ainda não eram sete da manhã e, para alguns de nós, acordar cedo é um verdadeiro martírio (leia-se EU, por exemplo). Talvez também para Avener, nosso fotógrafo, que chegara havia poucas horas de São Paulo. De qualquer forma, era visível o cansaço na expressão de todos e na minha, embora estivéssemos todos despertos.

Fernanda pediu a palavra para algumas orientações antes de sairmos. Uma delas, talvez a principal: não tomar Chicha, uma bebida feita de milho e fermentada através da saliva (!!). Aparentemente a fabricação da bebida consiste em comer milho, mastigá-lo e cuspi-lo na garrafa. Não tive a oportunidade de confirmar a informação com uma fonte confiável, mas decidi seguir com a recomendação.

Demoramos mais que o previsto para começarmos a nossa viagem. Uma parada no banco para um dos nossos tripulantes sacar uma grana e não ser pego de surpresa durante a expedição nos atrasou alguns minutos. Depois, partimos para a estrada ao som de Belchior, que eu achei perfeito para viagem. Sempre tive a sensação que Belchior fosse um cara meio perdido no mundo, um artista sem fronteiras e sem território para chamar de seu. Casava bem para nós, que estávamos partindo para lugares perdidos no mapa brasileiro. Não sei se a associação faz tanto sentido. Talvez fosse porque a época que eu comecei a ter curiosidade em ouvir Belchior tenha coincidido com a mesma curiosidade que tive em ler “On the road” e “Verdes vales do fim do mundo”, do Antonio Bivar. Mas também talvez fosse apenas o sono falando.

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Apesar de animada, a equipe ainda parecia estar em um transe por causa do sono. Cristyan era de longe o mais animado da vã e trocava ideias com o nosso técnico eletricista, Francisco. Esse, uma figura à parte, que contava histórias sobre quando ele largou o exército para se embrenhar no meio dos garimpos da Amazônia nos anos 70. O tipo de cara que vale pagar uma cerveja só para ouvi-lo falar.

Durante a viagem a preguiça se espraiava. Tanto que não resisti ao sono várias vezes e procurei dormir boa parte do trajeto. Os momentos em que fiquei acordado foram, invariavelmente, para conversar com Fernanda. Desde que nos conhecemos, eu e ela sempre tivemos uma facilidade muito grande para conversarmos em um desses entrosamentos que acontecem naturalmente e que não conseguimos explicar.

Um exemplo desse entrosamento era a nossa principal preocupação durante aquela tarde, que envolvia a reunião de um bando de senhores engravatados em Brasília. Tivemos um longo papo sobre como essa onda conservadora que se agiganta deveria assustar a qualquer pessoa que preze por valores que incluam a igualdade (social, sexual, racial, de gênero…). Chegamos à conclusão que estamos num mato sem cachorro, para não usar uma expressão mais chula.

Golpeados ou não, a van seguia seu rumo. De Porto Velho para Iñapari, cidade peruana que passaríamos a noite, eram mais de 800km. Muito chão pela frente. No meio do caminho ainda tivemos que pegar uma balsa para continuar a nossa viagem, o que nos atrasou mais um tanto. Paramos para almoçar em Nova Califórnia, distrito de Porto Velho,  antes de seguirmos para a cidade de Capixaba, já no Acre.

A história de Capixaba vale um texto só para si, por isso não me alongarei nela. Entretanto, vale dizer como ela é bonitinha. Jardins bem cuidados, uma bela praça de esportes bem próxima à escola pública da cidade (não tenho certeza se há outra).

Seguindo o trajeto, pegamos alguns trechos de chuva intensa, típica da Amazônia. Eu confesso que fiquei com muita vontade de parar o carro para tomarmos um banho de chuva lá fora. Era uma daquelas com gotas grossas que chegam a doer quando golpeiam o corpo, o melhor tipo de chuva para se banhar. Talvez por conta de uma memória afetiva muito forte. Jogar bola na chuva com meu pai, em Icoaraci, fez parte da minha infância e é engraçado ver como aquela água toda caindo do céu me remete à rua que ficava em frente à casa da minha avó paterna. É um pouco de loucura ter um sentimento tão bom naquele momento, principalmente porque as pancadas de chuva que iam e vinham eram tão fortes que às vezes era quase impossível enxergar mais que cinco metros à nossa frente, o que a tornava essa chuva um tanto perigosa.

Terror da Amazônia - Christyan Ritse

Foto de Cristyan Ritse. Neste lado da Amazônia tem mais boi que árvore.

Interessante notar que estávamos cruzando a Amazônia e víamos pouquíssimos trechos de mata fechada. No lugar da floresta, pastos e mais pastos por todos os lados, o que, por si, já diz muito sobre o que foi feito com a região ao longo dos anos.

Do almoço em Nova Califórnia até cruzarmos a fronteira com Peru, em Assis Brasil, no Acre, foram umas oito ou nove horas de viagem. Mais do que o imaginado. Isso porque as estradas estavam em péssimas condições a partir de Capixaba. Havia verdadeiras crateras no meio do caminho. Algumas que tomavam os dois lados da estrada, obrigando o motorista a ir de um acostamento ao outro para poder escapar de alguns buracos sem danificar alguma suspensão.

Nossa chegada a Iñapari foi por volta das 22h. Fomos recebidos por John, o nosso produtor local. Gente finíssima que nos levou a uma pizzaria perto do hotel. O único contratempo ao chegarmos foi a quantidade de formigas voadoras. No banheiro do quarto que fiquei, os boxes estavam totalmente tomados por elas.

Mesmo cruzando a fronteira, é curioso como o Brasil nos acompanha de alguma forma. No hotel, a TV ligada em um noticiário local falava sobre o golpe de estado em curso no país. Já na pizzaria, a primeira música que ouvi em solo peruano foi um funk pancadão. A segunda um tecnobrega. Ambos eu nunca havia escutado no Brasil antes.

Hoje a noite começam os trabalhos. É a primeira sessão da itinerância. Bate um frio na barriga, de certa forma. Mas estou animado. Posso dizer que começamos.

Ps1: Comem-se ótimas pizzas em Iñapari. Destaque para a “cubana”: calabresa, mussarela, azeitona e abacaxi.

PS2: Teve golpe. Vai ter luta? Veremos.

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