Betty Mindlin

Betty Mindlin

Na primeira vez que esteve em Rondônia, Betty Mindlin foi enfeitiçada. Era fascinação com o novo, com o mundo indígena, o mundo Paiter-Suruí, Ikolen, Makurap, o mundo Tupi, enfeitiçada em sonhos cheios e intensos imaginando um novo mundo que se abria, mas um mundo que estava ameaçado de desparecer, mundo sendo destruído, exterminado, desmatado. O feitiço não era apenas do encantamento, mas, sobretudo, como veio a se realizar posteriormente nas décadas seguintes, de comprometimento, de compartilhamento da vida e da luta. Esse mundo que Betty descobriu em Rondônia era um mundo de conflitos no qual ela acreditava que poderiam caber muitos mundos, todos os mundos.
Essa arampia, “mulher” em makurap, chegava para mudar a si e ajudar a transformar o mundo para se abrir e escutar novas vozes, a lutar por espaços para as diferenças. Filha de pai e mãe do mundo dos livros (o pai um homem da cultura, voltado a abolir a desigualdade social e qualquer forma de discriminação ou preconceito, tornou-se industrial), com a formação em economia na USP e mestrado na prestigiosa universidade americana de Cornell, Betty tomou distância da academia para então retornar com em uma perspectiva distinta. Foi uma série de fatores e “coincidências” — talvez um aforisma de “feitiço” — que a levaram a tentar a experiência pessoal de se rever e repensar em Rondônia. E orientada pela amiga Carmen Junqueira, antropóloga histórica das lutas indígenas e professora da PUC de São Paulo, Betty foi ao mundo indígena pensar a economia.
Se no início Betty queria ver como se organizava uma sociedade sem o dinheiro, e pensar a relação da economia em uma sociedade Tupi, a vida econômica que ela encontrou nos Paiter-Suruí dizia muito mais sobre ela e o mundo que ela vivia do que podia imaginar. Não havia a separação da economia com os outros modos e lados da vida. Enquanto os indígenas a estavam ensinando sobre o mundo indígena, que ela achou que estava aprendendo, na verdade o que Betty diz que mais aprendeu no convívio e na aliança com os povos indígenas foi sobre poder político, o jogo de forças econômicas, sobre as grandes empresas e grandes projetos na Amazônia. “Através do índio você vê o processo econômico”, disse ela numa entrevista. Mesmo tendo lecionado cursos de sistemas econômicos comparados, com aulas sobre auto-gestão e análise crítica ao capitalismo, e tendo convivido com empresários e economistas, foi com os índios que viu a trama.
Conhecendo melhor seu próprio mundo através da experiência da luta e da resistência indígena, Betty tornou-se uma aliada fundamental na defesa de todos os mundos da Amazônia ameaçados de destruição no final da ditadura. Uniu-se a grandes indigenistas, como Apoena Meireles e Silbene de Almeida, com antropólogos e antropólogas, como Carmen Junqueira e Mauro Leonel, criaram a organização Instituto de Antropologia e Meio Ambiente (IAMA). Os movimentos que se articularam em Rondônia, e Betty nessa articulação era peça chave por circular entre estes outros mundos da economia, conseguiram pressionar o Banco Mundial a suspender os financiamentos do Programa Polonoroestee o asfaltamento da BR-364 durante a ditadura. Rondônia, um “estado invadido”, estava sendo saqueado e os povos que lá viviam, exterminados. Em 1985, de forma inovadora, foram destinados recursos para a assistência das comunidades indígenas, de forma a preservá-las ou compensa-las dos efeitos destrutivos dos projetos de desenvolvimento. Foi uma vitória fundamental para a demarcação das terras indígenas em Rondônia e a proteção de unidades de conservação.
Na luta política, Betty Mindlin retribuía o encantamento que teve com os indígenas ajudando desde onde por sua experiência ela poderia melhor contribuir: ajustar um pouco a assimetria do mundo da economia e os outros lados e modos de vida.
Como Betty percebeu, a economia não estava separada do lado mais lúdico da vida. E aprendeu com os Paiter-Surui também o encantamento com os mitos, a cultura oral, a beleza em contar histórias, a música. Por meio da IAMA, passou a colaborarna formação de professores indígenas, e contribuir para uma educação diferenciada. Publicou sete livros em coautoria com autores indígenas, entre eles o delicioso Moqueca de Maridos(Paz e terra, 1997), levando a sério quando diz que são os índios que irão escrever a sua história,dedicando-se a escrever e registrar com professores e narradores indígenas a sua tradição e sua música. Lançou em 2006 o maravilhoso Diários da Floresta (que virou série de TV) e,neste 2017,Crônicas Vestidas e Despidas (ed. Contexto).
Em momentos de angustia, incertezas, intolerâncias e violências, é inspirador pensar na beleza da vida que, como Betty Mindlin fez em Rondônia, contribua na construção de um mundo onde caibam todos os mundos, para que todos os mundos existam e convivam em Rondônia.

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