DIÁRIO DE BORDO 8 EM NOVA CALIFÓRNIA

DIÁRIO DE BORDO 8 EM NOVA CALIFÓRNIA

Nova Califórnia fica no oeste, e no extremo norte de Rondônia. O último distrito do grande município de Porto Velho. Quase no Acre. Perto da Bolívia. Fronteira também com o Amazonas.

Em Nova Califórnia aconteceu a última sessão da quarta itinerância do Festcineamazônia em 2011. Percorridos sete distritos em oito dias, durante o período de chuvas e em estradas degradadas pela água, o festival chegou ao fim nessa quinta-feira 22. Aqui, a recepção carinhosa do público que veio prestigiar de um tom de grand finale . A platéia compareceu em massa. Principalmente crianças e adolescentes. Nova Califórnia, sem dúvida, é um dos locais de maior sucesso do festival.

Talvez seja pela educação promovida pela escola municipal Maria Jacira Feitosa de Carvalho, que incentiva as crianças a acompanharem a sessão – durante o período das aulas, elas fazem trabalhos sobre os filmes que assistem. Ou o engajamento comunitário com raízes extrativistas, que cria relação de proximidade e afeto entre os vizinhos. De qualquer forma, em Nova Califórnia, a equipe percebeu uma recepção mais entusiasmada com o cinema e o show do palhaço Sorriso do que em todos os distritos anteriores. Uma bela forma de concluir a itinerância.

Na quadra da escola havia pessoas de todas as idades, principalmente crianças e adolescentes. Bebês, que nãos sabiam para onde estavam sendo levadas, mas aparentemente estavam gostando da iniciação com o cinema e circo, como Breno, 1 ano, Lavaene, 2 meses, a senhores como Antonio Saturnino Silva, 64 anos, antigo soldado da borracha, ou Odacir Barros, 62, migrante sulista, e muitos adolescentes, como Eliane, 13, e João Marcos, 15. O ambiente serviu tanto para descontração familiar, como para discreta azaração e paqueras.

Para a vice-diretora da escola, Ana Cristina Azevedo da Silva, 34 anos, “os alunos amam mesmo o festival, e pensavam: será que vão vir esse ano?”. Segundo Ana Cristina, que cresceu no distrito e estudou na escola, “quando estão em aula, os alunos fazem trabalhos sobre os filmes que viram, e o festival mobiliza a comunidade.” Diz ela que o nome da instituição é uma homenagem a uma visionária educadora, Maria Jacira, vinda de Rio Branco, que faleceu de tétano no final dos anos 1980. Foi a educadora quem reformou o ensino e engajou a população na educação, conta Cristina. A nova sede do colégio ficou pronta no dia 19 de novembro. Alguns alunos pediam para a vice-diretora deixar eles “entrar só um pouquinho”, como se sentissem saudades das classes.

Vinte e dois de dezembro. Exatos 23 anos atrás, Chico Mendes era assassinado em Xapuri, no Acre. A data foi lembrada na abertura pela organizadora do evento, Fernanda Kopanakis: “Chico Mendes deixa uma mensagem: a gente só vai viver se manter a floresta e as árvores em pé, precisamos sobreviver com a floresta, com menos violência no campo e menos devastação.”

Nova Califórnia é o ponto de apoio para os castanhais e seringais do Amazonas, na região conhecida como Sul de Lábrea. É o centro urbano onde os extrativistas buscam mantimentos, e onde alguns rivais na luta pela terra, fazendeiros e madeireiros, também se estabelecem. Há um clima de tensão escondido no ar, que por vezes toma dimensões violentas que culminam no assassinato de lideranças, que pode ocorrer no perímetro urbano, ou na área rural no Amazonas. Assim foram executados, desde 2007, pelo menos sete lideranças rurais, como Gedeon, que dá nome a um assentamento na região.

Nova Califórnia é a sede do projeto Reca RECA (Reflorestamento Econômico Consorciado e Adensado), que auxilia os extrativistas a coletar frutos da floresta e industrializa-los. Vários integrantes estavam presentes, e se emocionaram com a projeção do filme Soldados da Borracha. Alguns extrativistas alegam que, com a violência no campo em razão do conflito fundiário, muitos não estão podendo coletar castanhas durante a época da chuva, que acontece nesse momento. E outros, como Antonio Saturnino Silva, comentou, emocionado: “era assim mesmo a nossa vida no seringal, era muito triste”, diz.

O Reca é um bem sucedido projeto agroflorestal que incentiva famílias a produzirem agricultura ecológica e extrair frutos da floresta, industrializando e auxiliando na distribuição ao mercado. Minha visita a sede do projeto, em particular, culminou com a compra de todo o estoque de farinha de castanha que eles produzem. É muito boa.

Ao longo da viagem, aconteceram algumas dificuldades logísticas em razão das más condições das estradas durante essa época do ano. Nesse trajeto, também, é como se um livro de história da Amazônia fosse contado. Fica claro nas marcas deixadas nesses distritos os sucessivos ciclos econômicos para a região: borracha, garimpo, madeira, gado e agora, a energia hidrelétrica.

Parte essencial para compreende o momento atual são depoimentos de migrantes que vieram na leva da ditadura militar. Odacir Barros nasceu em Júlio de Castilhos, no Rio Grande do Sul, migrou para o Paraná e, músico de um grupo tradicionalista gaúcho, veio fazer um show em um Centro de Tradição Gaúcha (CTG), em Rio Branco. Acontece que no inicio dos anos 1970 o CTG não estava funcionando, e ele teve de ficar, sem dinheiro. Eletricista, arrumou emprego nas emergentes vilas, e conta ter hoje um lote de terra que comprou de seringueiros. E que segue sendo floresta. “Bicho? Não tenho gado lá não. Só macaco, anta, capivara.”

Grande parte da população novo californiana é evangélica. Há a igreja Missão Unida do Brasil, Templo Batista, a Igreja Madureira amor em cristo, Assembléia de Deus, entre outras. Nos mercados não vendem tabaco nem cachaça – “só naqueles bares lá embaixo”, comentou um senhor.

Em um ambiente distante dos grandes centros, e também onde a população reclama a ausência do Estado, oferecer cultura é lazer é gratificante, falou Jurandir Costa, organizador, também na abertura dessa última sessão: “A gente entende que a cultura é um instrumento de transformação da sociedade. É a nossa pequena contribuição para oferecer à criançada cultura, e a importância da preservação do meio ambiente.”

A criançada aplaudiu. E o palhaço Sorriso, dessa vez, jogou junto da torcida.

Por Felipe Milanez

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