Dia 6 – Em Nova Califórnia, nossa estreia em Porto Velho

Dia 6 – Em Nova Califórnia, nossa estreia em Porto Velho

Chegamos em Nova Califórnia na hora do almoço. Era a primeira sessão do Cineamazônia Itinerante que fazíamos em solo rondoniense. Se quer ter uma noção de como o distrito de Nova Califórnia é escondido, tente procurar no Google. Vai lá, eu espero. (…) (…) (…). Achou? Não, né? Pois é, mas a comunidade de fato existe e fica às margens da BR 364. Por esses lados, asfalto praticamente não existe. A terra batida cor de tijolo cobre os caminhos esburacados por onde passam os veículos e o mato cresce pelos lados das ruas, escondendo o esgoto em céu aberto que escorre em frente às casas de madeira. Olhando bem, o local parece uma extensão brasileira do bairro Amstad, em Cobija.

Mesmo já estando no Brasil ainda não temos sinal de telefonia. Celular, portanto, é algo que não funciona por aqui. Até o sinal do telefone fixo é difícil de pegar. É engraçado, porém, saber que todos tem um smartphone, graças à internet. Você acha que Whatsapp mudou sua vida? Imagina a revolução que o aplicativo proporcionou por essas bandas.

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Depois do almoço não havia muito o que fazer, então fui com Christyan procurar um personagem para o “Museus Vivos”. Uma rápida visita ao supermercado bem próximo ao hotel que estávamos hospedados e uma moça conta que conhece o cara perfeito para contar sobre a cidade.

José Antônio, apelidado como Biro-Biro, tem por volta dos 50 anos e é mais um cearense que foi com a família para Rondônia em busca de uma vida melhor. Chegou com menos de 20 anos em Nova Califórnia, quando o ronco das madeireiras ainda não quebravam o silêncio ao fundo na cidade.

Ele mora em uma casa de madeira, com as portas sempre bem abertas. Na entrada da casa, uma mesa com computador e um sofá encostado na parede. Entra quem quiser e ele ajuda a todos como pode.

Conversando, Biro-Biro (que ganhou o apelido por ter o cabelo igual ao do jogador que fez história no Corinthians nos anos 80) contou sobre o litígio entre Acre e Rondônia por interesse naquele pedaço de terra no local, claro, pensando na arrecadação fiscal do distrito e o clima de rivalidade que a disputa criara na cidade.

biro biroExplicou como resolveu ajudar aqueles que vinham de outros lugares do país como ele e sentiam dificuldade de se fixar na terra. A ideia passava pela derrubada consciente da floresta e a plantação de subsistência e comercializando produtos típicos da terra. Tentava solucionar os problemas da conhecida falta de estrutura encontrada para viver na Amazônia naqueles tempos.

Contou também sobre como sua mãe chorava pedindo para que ele não saísse de casa para trabalhar, tantas eram as ameaças que ele sofria pela petulância de se meter no interesse daqueles que acreditam mandar na região.

Quando se entra em contato com um universo em que pistolagem  continua acontecendo (porque até hoje não existe nem sinal do poder público), você conhece outro tipo de medo relacionado à violência, muito mais real que a que estamos acostumados.

Saímos da casa de Biro-Biro em direção ao hotel, já quase anoitecendo. Céu alaranjado dá um ar sombrio ao distrito, acentuando a sensação de total abandono da região.

A sessão foi na quadra de uma escola pública. A poeira alaranjada toma conta de toda a arquibancada e o chão da quadra. Do lado de fora, um cidadão com uma bicicleta de carga verde, com um catavento na frente e um microfone vende chup-chup (ou sacolé, ou chop, depende da região). Ele também trabalha fazendo divulgação de eventos na cidade e o festival já havia utilizado de seus serviços anteriormente._84U5383

A imagem dele chama a atenção de parte da equipe que ficava na frente da escola. Fernanda se empolgou e tentou dar uma volta com a bicicleta dele, mas desistiu. Talvez por ter lembrado do tornozelo torcido ainda em Iñapari. Ele ainda estava roxo e levemente inchado. Era melhor não abusar da sorte. Christyan, por sua vez, pegou a bike e deu uma pequena volta, quase se desequilibrando por causa do peso da bicicleta.

A sessão em si foi um sucesso, com o público participando bastante da exibição. O show dos palhaços teve um contratempo e precisou de algumas improvisações de última hora. Talvez por isso, não cativou tanto os adolescentes que ficaram sem entender algumas esquetes. Paciência, ainda é só o começo.

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