FESTCINEAMAZÔNIA ITINERANTE 2015 NAS COMUNIDADES QUILOMBOLAS DO GUAPORÉ

FESTCINEAMAZÔNIA ITINERANTE 2015 NAS COMUNIDADES QUILOMBOLAS DO GUAPORÉ

Ao longo do Rio Guaporé e nos locais visitados pelo FestCineAmazônia Itinerante 2015 – Vale do Guaporé durante o mês de julho, dois tem características próprias, por se tratarem de terras ocupadas de maneira especial e já há muitos anos. São as comunidades quilombolas de Santo Antônio, visitada no dia 12, e a de Pedras Negras, cuja exibição foi no dia 14 de julho.

A Comunidade Quilombola de Santo Antônio foi reconhecida pela Fundação Cultural Palmares somente em 2004, depois de muita luta e árduas batalhas judiciais, em demanda com proprietários de fazendas da região e o próprio poder público. No Estado de Rondônia, foi a primeira comunidade quilombola reconhecida e titulada oficialmente.

Desde 1982 a questão sobre a titularidade e posse das terras estava na justiça, e com a criação da Reserva Biológica do Guaporé, em 1986, que ocupou parte das terras da comunidade quilombola a questão foi agravada. Algumas famílias foram despejadas de outras comunidades, e em Santo Antônio conseguiram resistir e permanecer na área, conseguindo apoio político.

Mesmo assim a comunidade continuou a viver em situação precária, em território registrado em nome do Ibama e dentro de uma reserva ambiental, sendo que em áreas assim é estritamente proibido qualquer atividade humana, a não ser para pesquisas e estudos. Houve a intenção de se criar uma reserva extrativista no rio São Miguel com as famílias de Porto Murtinho, incluindo parte da comunidade de Santo Antônio, porém não prosperou.

Isto significou uma desvantagem para a comunidade, que foi tendo todos os seus direitos e a sua sobrevivência ameaçada pela reserva, com o Ibama passando a considerar os moradores de Santo Antônio como invasores da terra, dentro da própria comunidade onde tinham nascido e criado as famílias.

Tal situação gerou a clandestinidade dos moradores da comunidade, pois legalmente não poderiam realizar nenhuma atividade econômica, sendo que a agricultura, a caça e a pesca foram restringidas. Em situação geográfica totalmente isolada, sendo o seu acesso apenas via fluvial, em 1995 tanto Santo Antônio quanto Pedras Negras foram integradas ao novo município de São Francisco do Guaporé, local de colonos na BR-429 e com que não tinham nenhum laço cultural ou econômico.

Depois de muita disputa, a comunidade de Santo Antônio conseguiu a demarcação de seu território historicamente ocupado pelos ancestrais, mas ainda hoje as famílias passam sérias dificuldades, principalmente para o interior da área e com o avanço das áreas desmatadas para a cultura da soja.

Já a Comunidade Quilombola Pedras Negras abrigava um porto e está localizada em região estratégica do Rio Guaporé, em uma longa curva do rio. Na época de seca, imensas pedras ficam a vista no leito do rio, dificultando a navegação. O local é avistado ao longe, com a torre da igreja imponente marcando a localização, e toda a comunidade está assentada em imensos blocos de pedra negra, o que lhe confere o nome peculiar.

Seus primeiros habitantes foram negros escravizados que fugiam da Vila Bela da Santíssima Trindade, no Mato Grosso, próximo a nascente do Guaporé. Na comunidade funcionam pousadas de pescaria que incentivam a economia local, atraindo turistas de muitos locais, e sua população é formada por cerca de 35 famílias e tem na extração e coleta de castanhas outra de sua fonte de renda.

Mesmo com as dificuldades inerentes à história de lutas e disputas das duas comunidades quilombolas, o FestCineAmazônia Itinerante 2015 – Vale do Guaporé foi recepcionado com muito carinho pelos moradores, tendo inclusive dado carona a uma família e levado um motor de um dos moradores até a cidade de Pimenteiras.

Seu Andrada, líder da comunidade Santo Antônio, deu às boas vindas à equipe e todas as famílias se divertiram com a exibição dos filmes e o espetáculo circense. Em Pedras Negras também não foi diferente e mesmo em uma noite fria, a população se concentrou na praça da igreja formando uma plateia atenta.

 

O FestCineAmazônia Itinerante 2015 – Vale do Guaporé tem o patrocínio do BNDES, Governo Federal, Ministério da Cultura, Secretaria do Audiovisual, Lei Rouanet. Apoio cultural da Prefeitura de Porto Velho, Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Sema).

O FestCineAmazônia é membro do GreenFilm Network e Fórum dos Festivais.

 

 Por Texto: Felippe Jorge Kopanakis – Foto: Gavin Andrews

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