VISTA ALEGRE DO ABUNÃ

VISTA ALEGRE DO ABUNÃ

O melhor meio de transporte é a roldana. Pensei nisso ao ver os cabos de alta tensão cortando a mata em linha reta. Se fosse possível andar neles em uma roldana, daria para atravessar o rio Madeira em uma alta ponte, certamente com uma linda vista. Mas, em carros e caminhões, cruzamos pela balsa mesmo. E ver o Madeira de perto, quase tocando a água, com as margens tomadas de floresta, a ponta com uma bandeira que indica ser ali a Bolívia, é uma sensação de prazer frente a uma beleza estrondosa da Amazônia. Beleza cada vez mais rara ao longo do percurso.

Após algumas dezenas de quilômetros na asfaltada BR 364, circundados por pastagem verde da época das chuvas, chegamos em Vista Alegre do Abunã.

Conta a lenda local que cerca de 40 anos atrás um rico empresário de madeira de São Paulo estava sobrevoando a região. Não tinha estrada, era isolada, geograficamente, do resto do país, ainda sem colonização, que viria a ser engendrada pela ditadura militar nos anos subsequentes. De cima do avião, ele via uma “vista bonita”. Alegre, para todo lado que olhava, a vista era “alegre”. Milhares de hectares de mata. “Vista alegre”. E assim, contam no distrito de Vista Alegre do Abunã, foi batizada a vila que iria se estabelecer ao longo da BR 364.

Quem recebe a caravana do Festcineamazonia em Vista Alegre do Abunã é justamente um caminhão, com duas caçambas, lotado de toras de madeira. A indústria madeireira é a base da economia do distrito. Em toda a ponta do Abunã, o administrador de Vista Alegre, Agenor Oliveira, conta 347 mil 199 cabeças de gado, cálculo realizado pela prefeitura de Porto Velho em um cadastramento nesse ano. E 48% desse rebanho está em Vista Alegre. “A economia aqui é forte, tem a maior arrecadação do município de Porto Velho, que te, no total, 728 mil cabeças de gado.”

Dinheiro, no entanto, não tem sido revertido em melhorias de infraestrutura, cultura, educação e lazer. “O Estado está ausente aqui. As poucas iniciativas que surgem são dos empresários”, diz Oliveira. Recentemente, o distrito conseguiu recursos, do governo federal e parte, municipal, para asfaltar dois mil metros de ruas são trechos das ruas principais, vicinais à BR 364. Mas, com a chuva, a melhoria representou o desastre pra algumas famílias. “Não fizeram canaletas, e algumas casas alagaram tudo. A rua virou um rio”, relata o administrador.

Vista Alegre sofre também com a violência oriunda de conflitos rurais. Em maio foi assassinado o líder rural Adelino Ramos, conhecido como Dinho, que havia sobrevivido ao massacre de Corumbiara, em 1995. Dinho foi morto em frente a sua família por um pistoleiro – que teria sido capturado pela polícia. O distrito é próximo do estado do Amazonas, e a população daqui tem terras no sul da cidade de Lábrea, área com intensas disputas por terra. O governo federal, após a morte de Dinho, criou uma Área de Limitação Administrativa Provisória, para intensificar o processo de regularização de terras. E a indústria madeireira também recebeu maior atenção dos órgãos de fiscalização. Das 35 serrarias que existiam poucos anos atrás, hoje restam 18.

Sem grandes iniciativas públicas, e sem acesso a recursos culturais, as apresentações do Festcineamazônia nessa localidade sempre recebem um grande público. Foi assim nas quatro sessões realizadas aqui, nos últimos quatro anos.

Nessa terça-feira, a sessão foi ainda mais animada. Pela primeira vez, uma embrionária escola de música que tenta surgir no local fez a sua parte.

A pequena Fernanda Araújo, 10 anos, apresentou três canções em gaita de ponto. Fernanda toca gaita há um ano, aprendeu com Valdir Alves Pereira, que se mudou para o distrito pouco antes. Hoje, Pereira, que toca violão e acordeão, quer montar uma escola de música no distrito. “Falta um pouco de apoio para construir a sede e comprar os instrumentos. Já tenho 9 alunos, mas a demanda aqui é muito mais alta”, ele diz.

Na frente de expansão econômica, longe do Estado e dos centros do poder, ver florescer a arte, através da música, em uma criança, é um sopro esperança de que, em Vista Alegre, a realidade pode mudar.

Por Felipe Milanez

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