Dia 3 – Iñapari parte II: O retorno

Dia 3 – Iñapari parte II: O retorno

” No creo en las brujas. Pero que las hay, las hay…”

Mesmo o mais cético dos tripulantes de nossa itinerância está repetindo esse ditado internamente.

Eu, por exemplo, começo inclusive a imaginar que tem uma cabeça de bode enterrada em algum lugar, que colocaram o nome de alguém na boca do sapo ou que atropelamos um gato preto na viagem. Porque não é possível!

Com os problemas da noite anterior, decidimos seguir a viagem em direção a Puerto Maldonado. Anteriormente, a programação era ir para Arca de Pacahuara, mas as notícias que tínhamos por parte do nosso produtor no Peru era de que a cidade inteira estava em um retiro espiritual. A mudança entretanto fora até comemorada por Christyan. Puerto Maldonado é considerada uma cidade maior, mais turística e com mais opções noturnas.

É, teria sido realmente ótimo… Se conseguíssemos sair de Iñapari em direção a Puerto Maldonado!

Explico: apesar de Iñapari ser uma cidade peruana, ela ainda é considerada um território entre as fronteiras. Por isso, ainda precisamos da autorização da imigração peruana para entrarmos no resto do território do país. O que gera um paradoxo porque ao mesmo tempo que estamos no país, também não estamos. Louco, isso.

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Mesmo com todas as documentações em dia, não conseguimos passar a fronteira. (Foto Avener Prado/Cineamazônia)

Já parados em frente à fronteira, que aconteceu em seguinte foi uma torturante maratona burocrática capaz de tirar qualquer pessoa do sério. Mesmo com a equipe tendo realizado todos os procedimentos que sempre foram exigidos pela imigração peruana nos anos anteriores, passaram-se 30 minutos, uma hora, duas horas, três horas… e nada de sermos liberados.

Quando achávamos que tínhamos conseguido cumprir todas as exigências da polícia aduaneira, sempre aparecia a necessidade de uma série de documentos obscuros. O que mais irritava era que as exigências vinham de forma parcelada, nunca de uma vez só.

Fernanda me conta que no ano passado, a caravana teve que ficar cerca de doze horas parada na fronteira para conseguir seguir viagem.

Não éramos os únicos a sofrer com toda essa burocracia. Em uma birosca perto, um grupo de Florianópolis estava parado há 20 dias sem poder entrar em território peruano. O grupo era da organização de um evento que realiza maratonas em regiões montanhosas e já passaram por todos os países da América do Sul. Eles pretendiam promover o evento esportivo em cidades próximas a Cusco.

Não deixa de ser interessante constatar que a forma com que dois eventos, um esportivo e outro cultural, passem por essa situação. Não consigo evitar de pensar se sofreríamos tanto com a intransigência aduaneira se fôssemos um carregamento de toras de madeira ou de gado.

Se houve alguma parte dessa situação que possa ser considerada positiva, foi que a espera acabou aproximando ainda mais o grupo. Sem absolutamente nada para fazer, descemos da van e ficamos conversando, o que rendeu boas risadas.

O ponto alto foi protagonizado por esse que vos escreve, que conseguiu a proeza de confundir um urubu que estava pousado em cima de um poste com um cachorro. Eu realmente não tenho defesa para isso.

No meio da conversa, um trio de argentinos apareceu querendo uma carona para Puerto Maldonado. Levavam consigo violões, bongôs, mochilas com poucas roupas. Não demorou para eles se entrosarem com a moçada da van, principalmente com os palhaços peruanos que iam conosco na viagem. Que cena incrível era eles fazendo um som sentados no acostamento em frente à fronteira.

A descrição dos caras, bem… Sabe o estereótipo da galera de humanas que vive vendendo a arte que produz com produtos tirados diretamente da natureza? Então, era basicamente isso.

Eles estavam rodando países da América do Sul com sementes típicas de cada região, replantando  árvores em áreas desmatadas. Massa, né?

Também achei. Pena que não rolou a carona.

Até porque — advinha?! — não conseguimos passar pela fronteira. Depois de apresentar todos os documentos em todos os formatos possíveis, os caras tiraram da gaveta obscura das exigências absurdas a necessidade de mais um documento para seguirmos a viagem.

Diante dessa novela, Fernanda bateu o martelo: Cancelaríamos Puerto Maldonado e faríamos uma segunda tentativa de exibição em Iñapari.

Mas como tragédia pouca é bobagem, na hora que estávamos indo embora para o almoço, Fernanda pisa em um buraco próximo ao meio-fio, cata um cavaco e cai no chão. Resultado: um tornozelo inchado na hora e uma dor tão forte que deu ânsia de vômito, segundo ela.

Fernanda diz quem a derrubou foi o policial que, cansado daqueles brasileiros enchendo o saco dele, a empurrou com a força da mente. Christyan diz que há uma energia estranha no ar. Já eu continuo com a teoria da cabeça de bode.

Com todos almoçados, voltamos para o hotel em Iñapari, descansarmos um pouco. Eu vou em busca de um wifi para trabalhar. Aproveito para dar uma olhada mais de perto na cidade. A sensação que tenho é que é um lugar bem acolhedor. Cercas baixas, pessoas simpáticas, ritmo de cidade de interiorzão brasileira.

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Pessoas na praça esperando o Cineamazônia (Foto Avener Prado/Cineamazônia)

Consegui adiantar o trabalho em uma lanchonete local e voltei para o hotel, onde pude continuar trabalhando. Eis que a fonte recém-comprada do meu notebook queima, a máquina desliga e eu perco todo o trabalho que estava fazendo.  Eu só consigui pensar que se dane o ditado, as bruxas existem sim!

Bem, com tudo perdido, só restava ir ver como estava o festival.

E estava lindo!

A estrutura foi montada ao lado da praça principal. Fecharam a rua para veículos para colocar o telão. A redondeza ficou toda escura, sendo iluminada apenas pela tela e o pelas lâmpadas coloridas em azul, vermelho, laranja e amarelo. Na frente da tela, um tapete seria o “palco” da apresentação dos palhaços.

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População sentada em cima de um muro assistindo à sessão. (foto Avener Prado/Cineamazônia)

As 249 cadeiras colocadas já estavam praticamente todas tomadas pelos moradores, principalmente por crianças. Outras tantas estavam sentadas espalhadas pela praça. Era visível a satisfação dos moradores com os filmes, que interagiam com as animações.

Depois, foi a vez da apresentação de Aguahito e Figurita, nossos palhaços, entrarem em cena.

Amigo, é preciso ter a paciência de um monge budista para aguentar o rojão de ser palhaço. Principalmente porque as crianças de Iñapari são absolutamente insanas!

No começo a dupla ainda conseguia conter os ânimos da meninada com jogo de cintura. Com o desenrolar da apresentação, porém, a coisa foi ficando descontrolada. Muitas das crianças que estavam sentadas nas cadeiras mais atrás passaram para a frente, sentando no chão com a esperança de serem chamadas para participar de alguma parte do número. Com isso, elas invadiam o espaço da apresentação, obrigando os palhaços a pararem para pedir para que elas chegassem mais para trás.

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Figurita e Aguahito: antes da anarquia. (Foto Avener Prado/Cineamazônia)

A vaca afundou no brejo a partir do momento em que eles passaram a escolher quem participaria da apresentação. Em uma decisão muito mal calculada de Figurita, na qual ele deve estar amargamente arrependido até agora, ele conseguiu levar os dois moleques mais insanos da plateia.

O primeiro, maior e de camisa cinza, resolveu viajar que era um cachorro. Latia e rosnava para Figurita sempre que este último lhe chamava a atenção. O outro, menor e de camisa azul, não parava de pular e, de vez em quando, acertava chutes potentes na canela do palhaço que, na maioria das vezes, não conseguia fugir das investidas do garoto.

Uma das gincanas planejadas pelos palhaços consistia em dois times de dois, dois meninos e duas meninas, que deveriam passar um elástico pela cabeça até os pés e passar para a dupla. Brincadeira simples, mas que teve de ser repetidas  várias vezes porque nenhuma das duas equipes aceitavam o resultado da gincana.

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Figurita e Aguahito (Foto: Avener Prado)

Depois da quinta ou sexta vez que ela repetiu, o caos se instalou de vez. As crianças invadiam toda hora o espaço da apresentação. Figurita tentava salvaguardar as canelas contra os ataques do garotinho de azul segurando-o pelo braço, enquanto o outro, de camisa cinza, corria de um lado para o outro latindo ferozmente em sua direção. A essa altura ele já ganhara a companhia de um dos vários cachorros de verdade que rondavam a praça e eu já não sabia qual dos dois avançaria primeiro.

Aguahito tentava contornar a situação falando ao microfone “o que aprendemos na escola? Respeitar o próximo, sim?”, ouvindo um coro de “SIM!” vindo da plateia. Enquanto isso, um outro moleque resolveu encarnar determinado vice-presidente da república e tentava, literalmente, puxar o tapete em que Aguahito estava.

Após alguns minutos de total anarquia, o espetáculo voltou ao normal e terminou sem mais sustos.

Fomos para o hotel. Apesar de tudo, conseguimos fazer as coisas funcionarem e a primeira sessão de cinema Cineamazônia Itinerante 2016 foi linda.

Ps1: Iñapari tem um restaurante de comida peruana feita por alemães e que fazem moqueca. Eu pedi uma e estava muito gostosa, embora tivesse algo com uma consistência esquisita que eu preferi não perguntar o que era. O restaurante é bom, diferente. Quem for turista, vale a pena visitar. Saímos todos satisfeitos, com exceção do Francisco, que se sentiu ludibriado com seu almoço. Não tinha feijão.

Ps2: Cusqueña, a cerveja peruana que tomamos, é melhor que Budweiser. Ponto.

Ps3: Fim do Ministério da cultura. Algo me diz que todos os dias serão sexta-feira 13 até 2018.

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