“Brincando Nos Campos do Senhor”

“Brincando Nos Campos do Senhor”

Texto e Fotos de Toninho Muricy, Diretor de Som do Cineamazonia Itinerante 16ª Edição

 

O nome do filme de Hector Babenco e do livro homônimo de Peter Matthiessen, é a imagem que me vem à cabeça para descrever a experiência de passar 3 semanas na fronteira do Brasil com a Bolívia, descendo o Rio Guaporé de barco, gravando sons da Floresta Amazônica e do Rio Guaporé e seus igarapés, baías e canais, para o Documentário “Voando Sobre a Amazônia”, de Jurandir Costa.

 

Todos os anos, há 15 ou 16 anos, Fernanda Kopanakis e Jurandir Costa e sua equipe realizam o projeto “CineAmazônia Itinerante”. Descem o Rio Guaporé – fronteira de Brasil e Bolívia – parando nos pequenos vilarejos do caminho – Quilombos Pedras Negras e Santo Antônio, Costa Marques, entre tantos outros. Com 200, 300 habitantes, são lugares muito pequenos, em geral, sem acesso à internet, à tv, ao celular ou ao cinema.

 

Lá a equipe do CineAmazônia pega estruturas de alumínio, como as que sustentam a iluminação de shows, e monta uma tela de Cinema. Montam uma mesa de plástico onde vai o projetor, o computador e o controle do som, potente. Com cadeiras de plástico, montam a plateia. Em uma ou duas horas um campo de futebol, qualquer gramado, se transforma em uma sala de cinema ao ar livre. Exibem, no início da noite, ao ar livre, filmes e vídeos que falam de Meio Ambiente, da Amazônia, e de comunidades como aquelas onde estamos. Em duas horas depois da sessão, tudo está desmontado e dentro do nosso barco, e seguimos viagem. Navegamos em Rondônia de Pimenteiras a Guajará-Mirim, onde o Guaporé vai formar o Rio Madeira, e termina nossa viagem.

 

Neste ano de 2019, além deste projeto, foi realizado em paralelo o documentário “Voando Sobre a Amazônia”, onde um drone sobrevoa a floresta, rios e localidades. Como a imagem do drone não tem som, fui contratado para gravar os sons, os ambientes estéreos da floresta e do Rio Guaporé e seu entorno. Comigo estava Thomaz Kopanakis, meu bravo e competente assistente, e um hábil piloto de voadeira, papel em que se revezaram Clito, Dal e Fuad.

 

Acordávamos com o nascer do sol, tomávamos um café, pegávamos o equipamento, embarcávamos numa voadeira e entrávamos Rio Guaporé adentro.

 

E aí é que a imagem de estar “Brincando Nos Campos Do Senhor” se estabelece, se impõe. Esta época de junho é de cheia, no Rio Guaporé. As águas altas cobriam as margens e as praias dos rios e riachos, e chegava nas folhas e nas copas das árvores.

Foto: Toninho Muricy

O Rio espelhado tornava pura magia nossa navegação, a sensação era de que estávamos voando sobre o céu refletido n’água que nos sustentava. Cada lugar onde parávamos para gravar, era uma surpresa, uma novidade, um deslumbramento pela mata, perfeita, pelo rio, limpo, lindo, calmo, soberano, espelhado. Não havia “viagem perdida”. Não houve um dia que não gravássemos algo extraordinário.

 

Entre tudo que gravamos, e vimos – não vai dar para citar nem uma pequena parte de tudo – dois sons em especial me marcaram. Um dia gravamos o som de macacos prego, que pegavam cocos, e batiam com eles nos troncos de arvores e em pedras, repetidamente, para quebra-los e comer seu conteúdo saboroso. Aquela batida do coco, intencional, repetida, constante, até o coco se quebrar, poderia ser feita por qualquer ser humano, que seria igual. Não havia diferença entre nós e “eles”, entre Macaco ou Homem, ali, naquele som, naquele trabalho de quebrar coco:

“Ôh quebra coco, sinhá, é devagar!”. Canta a Capoeira.

Foto: Toninho Muricy

Outro momento extraordinário foi a primeira vez que entramos em uma pequena baía perto de Remanso, linda, águas lisas, macias, uma floresta que parece um jardim, de tão perfeita, e começamos a gravar.

De repente um boto surge ao lado do barco e expira e inspira o ar vital. O ambiente era tão silencioso e tranquilo, e nossos microfones estavam tão abertos, que parecia que ele respirava dentro nos nossos ouvidos. E sua respiração era de gente, humana. Eles respiram como uma pessoa, como qualquer um de nós, o som é exatamente igual.

Comentando mais tarde esse episódio com uma menina indígena na aldeia de Ricardo Franco, quando eu comentei que a respiração dos botos parecia a de um homem, ela e sua amiga nos disseram, “Mas ele é um homem! Foi assim que nossa avó nos ensinou!”

Foto: Toninho Muricy

É emocionante o momento que em que você percebe que a sua humanidade, que a sua natureza é compartilhada com outros seres, que há uma conexão e um parentesco muito maior do que você imagina entre estes seres e nós, isso que nos faz perceber quão profunda é nossa união com a natureza que nos envolve e abriga. Somos todos uma coisa só. A mesma Natureza.

A Floresta Amazônica, seus rios e matas e seus habitantes, são o que mais perto do paraíso eu consigo imaginar, mesmo com todo o calor e com todos os mosquitos que ali há!

Estar nela é uma experiência transformadora, emocionante, e nos ensina como, para além de todos os motivos científicos, é fundamental proteger a beleza e a poesia divinas da destruição humana, mais intensa ainda neste momento soturno em que vivemos.

Brincar nos Campos do Senhor é um privilégio, um milagre, uma dádiva, e é nossa a responsabilidade de impedir que nosso paraíso seja destruído pela sanha de dinheiro e poder de nossa “civilização”.

Obrigado à Fernanda Kopanakis, Jurandir Costa, Thomaz Kopanakis e a todos os mais de vinte colegas e tripulantes que tornaram nossa convivência e nossa tarefa tão agradável, e um momento tão especial.

 

Toninho Muricy

21/07/2019

 

Cineamazônia Itinerante – 16a edição – tem o patrocínio do BNDES, Governo Federal, Ministério da Cidadania, Secretaria Especial da Cultura, Lei de Incentivo à Cultura.

 

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